Prática e deliciosa, essa massa é cheia de simbolismo

O Brasil é um dos maiores consumidores de massa do mundo e, entre as muitas variedades existentes, o nhoque (ou gnocchi, em italiano) ocupa um lugar de destaque no coração e no estômago dos brasileiros. Embora o país seja culturalmente inclinado ao tradicional espaguete, ele conquistou um mercado sólido por dois motivos principais: a representação de comida afetiva e a conveniência, afinal, as versões resfriadas ou congeladas, que ficam prontas em poucos minutos, estão entre as mais vendidas nos supermercados e empórios.

Mas, mais que uma massa gostosa e prática, existe uma história que mistura escassez econômica, criatividade culinária e uma boa dose de superstição. Para começar é importante dizer que a receita original não é feita com batata, porque ela é bem mais antiga que a chegada do tubérculo à Europa. Na Itália Antiga, o gnocchi (cujo nome deriva de nocca, que significa nó dos dedos ou junta) era moldado com farinha de trigo, água e, às vezes, ovos.

A versão mais popular no Brasil, nasceu apenas no século XVI, quando a batata foi trazida das Américas. Inicialmente, ela era vista com desconfiança pelos europeus, sendo usada até como alimento para animais. Diante de crises de fome e da alta do preço do trigo, os camponeses italianos começaram a misturar a batata cozida à farinha. O resultado foi uma massa mais leve, barata e nutritiva.

Por aqui o nhoque ganhou versatilidade e variedade, especialmente na alimentação fora do lar. De acordo com Business Research Insights, os restaurantes e fornecedores de alimentos sempre inovam com nhoques recheados e aromatizados, incorporando outros ingredientes.

Uma ida ao Abbraccio Restaurante, em Campinas, confirma esse dado. A rede está com um festival que apresenta três tipos molho para o Gnocchi. Além do clássico pomodoro, tem ainda o Carbonara (preparado com queijo parmesão, pancetta, gema de ovo e pimenta-preta) e o Creamy Pesto, que combina os molhos pesto e Alfredo, finalizado com tomates confit, ricota fresca com parmesão e um toque de limão siciliano (foto do destaque). As combinações são muito saborosas.

“Nosso gnocchi é artesanal, feito com muita batata e farinha especial dentro da nossa cozinha, enrolado na mão. Então, esse festival foi uma forma de enaltecer essa nossa comida fresca e artesanal”, comenta Fernanda Neves, sócia-proprietária do Abbraccio Campinas.

Mais do que inserir novos molhos, brasileiros foram além. Também adaptaram o ingrediente principal da massa, que pode ser feitas de mandioquinha (batata-baroa), mandioca, banana-da-terra e até com outros vegetais mais leves como couve-flor e grão de bico, por exemplo.

Até versões doces você encontra por aí, o que nos leva de volta ao festival do Abbraccio, que tem como opção de sobremesa o Gnocchi de Tiramisù: trufas de Tiramisù, com sabor marcante de café servidas na calda de chocolate, com creme de mascarpone. Essa iguaria tem tempo limitado no cardápio (até 31 de maio), mas Entre Sabores faz votos que fique mais tempo.

Um prato simbólico: a lenda do nhoque da Fortuna ou da Sorte

No Brasil, a tradição mais forte associada ao prato acontece todo dia 29 de cada mês: o ritual do Nhoque da Fortuna. A lenda remonta ao século IV, na região do Vêneto, Itália. Conta-se que São Pantaleão, um médico vestido de andarilho, perambulava faminto em um dia 29 de dezembro. Ele bateu à porta de uma família de camponeses muito pobre pedindo comida. Mesmo com pouco, a família o acolheu e dividiu o singelo jantar, cada um teve direito a exatamente sete pedacinhos de nhoque.

Após comer, Pantaleão agradeceu e seguiu viagem. Quando os camponeses recolheram os pratos, levaram um susto: sob cada um deles havia uma fortuna em moedas de ouro.

Nos dias atuais, para quem quer atrair prosperidade, o ritual que atravessou os séculos exige três passos: colocar uma nota de dinheiro (de qualquer valor) embaixo do prato de nhoque; ficar em pé e comer os primeiros sete pedaços da massa, fazendo um desejo para cada um deles; guardar o dinheiro até o próximo dia 29 ou doá-lo a alguém necessitado para propagar a corrente de fartura.

Essa lenda impulsiona as vendas nos supermercados nessa data e atrai milhares de clientes aos restaurantes, alguns acabam por incentivar essa prática também. “Aqui no Abbraccio a gente tem o Nhoque da Sorte. O cliente que pede no dia 29 de todos os meses ganha um cupom para usar na próxima visita de um prato à sua escolha, que pode ser o próprio nhoque”, conta Fernanda.

Os Estrangula-Padres

Outra curiosidade histórica do nhoque é uma variação chamada Strozzapreti, que significa literalmente estrangula-padres. Tradicionalmente feita apenas com farinha e água, essa massa fresca também é enrolada à mão e tem uma textura rústica. que é caracterizada pelo formato alongado. O nome, que carrega o humor ácido da Itália Central (região da Emília-Romanha e Toscana), foi dado devido ao seu formato peculiar que lembra uma gravata ou um nó.

Existem duas explicações folclóricas para o termo: a primeira diz que os padres, historicamente conhecidos pelo apetite voraz, comiam a massa tão rápido que corriam o risco de engasgar; a segunda sugere que as donas de casa italianas, irritadas por terem que pagar tributos à Igreja na forma de alimentos, desejavam anonimamente que os clérigos se engasgassem com a refeição.

Serviço

Em Campinas, o Abbraccio Restaurante fica no Shopping Iguatemi. O Festival Duetto di Gnocchi está disponível em todas as unidades da rede. Apresenta um combo para duas pessoas por R$ 164,90, que inclui dois gnocchis participantes da campanha, duas bebidas não alcoólicas e a sobremesa inédita Gnocchi de Tiramisù, preparada com café Nespresso® .

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